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29/01/2018 11:05:23 - Atualizado em 29/01/2018 11:17:32


Os riscos do YouTube para crianças e adolescentes

Trabalho infantil, superexposição e incentivo ao consumismo são algumas das ameaças ao desenvolvimento de meninas e meninos

A ampliação do acesso de crianças e adolescentes a celulares, tablets e outras telas portáteis criou uma nova modalidade de trabalho infantil: os youtubers mirins. Nesta atividade, crianças e adolescentes gravam vídeos periodicamente em seus canais no YouTube e são remunerados por fabricantes de produtos para os quais fazem propagandas ou pela própria rede social, devido a anúncios inseridos ao longo do vídeo.
 
A atividade é prejudicial tanto para a criança ou adolescente que mantém o canal quanto para o público infanto-juvenil que assiste. “Nos vídeos de ‘unboxing’ de brinquedos, jogos, roupas e outros produtos, nos quais o youtuber mirim desempacota o item recebido do fabricante e relata porque é tão divertido ter um deles, ocorre claramente trabalho infantil, pois a marca divulga seu produto por meio do depoimento ‘espontâneo’ da celebridade mirim possuidora de canal com milhares de inscritos e curtidas”, explica a especialista em trabalho infantil artístico, Sandra Cavalcante.
 
Segundo a pesquisadora da Universidade de São Paulo (USP), há casos em que o youtuber fornece um código especial de desconto para quem quiser adquirir um item igual no site do fabricante.
 
É comum ainda que meninas e meninos sejam remunerados pelo Google, em decorrência da audiência e inserção de anúncios publicitários antes da exibição dos vídeos. “Neste caso, dicas de brincadeiras, ideias de desafios ou a rotina da criança ou adolescente são apresentadas no vídeo, que não contem merchandising, e a monetização é calculada pelo YouTube considerando o número de visualizações da publicidade pelo público daquele canal’, explica Sandra. 
 
Prejuízos
A advogada do Programa Criança e Consumo do Alana, Livia Cattaruzzi, lista o consumismo e o materialismo, a diminuição de brincadeiras criativas, a obesidade infantil, a erotização precoce, violência e segregação de gênero como algumas consequências da exposição à publicidade infantil. 
 
Quando se trata desse tipo de conteúdo no YouTube, a criança confunde publicidade com conteúdo espontâneo. Muitas vezes, o expectador estabelece uma relação de proximidade com os influenciadores digitais, como se fossem amigos dela. “Isso é facilmente identificado nos comentários das crianças nos vídeos publicados nesses canais, em que informam até dados de telefone e endereço de suas casas”, alerta Livia.
 
É trabalho infantil!
As crianças e adolescentes que trabalham em canais do YouTube costumam gastar bastante tempo nessa tarefa, o que pode diminuir o período dedicado a outras atividades essenciais nessas faixas etárias, como convivência com familiares e outros de sua idade, atenção aos estudos e atividades extracurriculares como esportes e artes, alerta Sandra Cavalcante.
 
A superexposição, em alguns casos, com milhares de seguidores e inscritos, pode resultar em casos de assédio, ameaças e bullying. Além disso, a cobrança por perfeição pode ter um efeito devastador na autoestima de uma criança ou adolescente, assim como o fim da fama ou ter que lidar com a perda do anonimato.
 
“Em meu estudo com artistas mirins ficou evidente que a inserção precoce no mundo do trabalho pode distorcer toda a formação do indivíduo, porque até o brincar se torna contextualizado, imerso naquele ambiente profissional no qual o artista mirim convive”, adverte Sandra.
 
“Um irreal cotidiano glamoroso, divertido e exibicionista é apresentado, com frequência com a aprovação e acompanhamento dos próprios responsáveis legais, que muitas vezes aparecem em alguns desses vídeos e dão suporte técnico às gravações”. Muitas vezes, os adultos próximos ao youtuber mirim conhecem os riscos de tal exposição, que pode ser repleta de stress, cobranças, consumismo e relações humanas superficiais.
 
O que diz a lei
A prática fere a legislação brasileira. A publicidade dirigida a crianças é proibida pela Constituição, pelo Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), por Convenção das Nações Unidas ratificada pelo Brasil, pelo Código de Defesa do Consumidor e pela Resolução 163/2014 do Conselho Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente (Conanda). 
 
O trabalho infantil, por sua vez, também é proibido pela Constituição, pelo ECA e por Convenção OIT. Pelas leis brasileiras, adolescentes podem trabalhar a partir de 16 anos, desde que não seja em atividades insalubres, noturnas e perigosas. A única exceção é para a aprendizagem, a partir dos 14 anos. A participação de crianças e adolescentes em atividades artísticas exige autorização de autoridade judicial competente, o que não ocorre na gravação de vídeos do YouTube. 
 
Sandra defende a intensificação da participação da escola na rede de proteção à criança e ao adolescente, já que é o local no qual os reflexos de tal atividade vêm com frequência à tona, seja no assédio devido a fama, no bullying em decorrência da exposição pública ou na mudança significativa de comportamento e performance escolar. 
 
“Também entendo que seja preciso reconhecer que a implementação dos direitos das crianças e adolescentes nesta era digital exige não só a adesão aos direitos humanos, mas também o empoderamento e participação social dos próprios protegidos, o que pode contribuir para fomentar a criatividade, inovação e compromisso social”, avalia. 
 
Dados
Por ser um tema novo, há poucas pesquisas sobre a utilização de YouTube por crianças e adolescentes. A pesquisadora Luciana Corrêa, do ESPM Media Lab, debruçou-se sobre o tema.  De acordo com o estudo “Geração YouTube - um mapeamento sobre o consumo e a produção de vídeos por crianças de 0 a 12 anos”, de 2016, canais voltados para crianças e adolescentes alcançaram 50 bilhões de visualizações no Brasil. No ano anterior, foram 20 bilhões. Entre os 230 mapeados, os de youtubers mirins tiveram incremento de 564% no acesso.  
 
A pesquisa TIC Kids Online Brasil, do Comitê Gestor da Internet (CGI) aponta que, em 2016, cerca de oito em cada dez crianças e adolescentes (82%) com idades entre 9 e 17 anos são usuários de Internet, o que corresponde a 24,3 milhões de crianças e adolescentes em todo o país. O percentual de internautas de 11 a 17 anos que tiveram contato com conteúdos mercadológicos em sítios de vídeos foi de 69%. Outros 62% ainda foram expostos a propagandas ou publicidade em redes sociais. Mais de 40% tiveram contato com propaganda ou publicidade não apropriada para a sua idade.
 
Informação é proteção
Lívia, advogada do Alana, explica que os responsáveis podem e devem educar as crianças sobre o consumo. Entre as medidas recomendadas, estão: impor limites sobre o uso da televisão, computador e dispositivos móveis pode ajudar a reduzir o tempo dela em frente às telas; sugerir e criar o hábito de realizar atividades como passeios a parques, momento de leitura, museus e teatro; supervisionar/mediar o que as crianças estão assistindo no YouTube e problematizar com as crianças sobre o conteúdo que estão assistindo, conversar sobre o propósito da publicidade e orientá-las a avaliar a necessidade de um produto antes de adquiri-lo.
 
“Vale lembrar que não cabe apenas aos pais essa tarefa de construir uma sociedade menos consumista, é uma construção social e coletiva, que não se restringe à esfera da família, e deve ser compartilhada entre todos os agentes da sociedade, como empresas, o Estado, educadores e população em geral”, defende Lívia. 


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Comentários (1)

Gilda Soares

31 de Janeiro de 2018 às 17:43:20
Excelente colocações e vem ao encontro de tudo que trabalhamos e acreditamos.
Somos membro do Fórum Peti Paulista e esta também é a nossa causa.
Atenciosamente,
Fecomerciários - Federação dos Empregados no Comércio do Estado de São Paulo

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